domingo, 14 de setembro de 2008

PRÓXIMA PARADA

Nas décadas de oitenta e noventa havia quem acredistasse que quando chegasse o ano dois mil estaríamos viajando em naves espaciais, mais ou menos como os Jetsons. Muitas das idéias que povoaram meu imaginário de criança foram descartadas depois de constatar que não aconteceu nada do que as pessoas me diziam sobre o futuro. E que, depois da entrada no novo século, continuou existindo o CDU- VÁRZEA para nos transportar em nosso vai-e-vem diário. Por falar nisso, viajar nos ônibus da CRT é mais que viagem, é a apreciação de um verdadeiro ‘talk show’ ao vivo. Sugiro a quem busca diversão a preço popular subir no coletivo, de preferência no Cais de Santa Rita, e só descer no terminal da Várzea. Você desfrutará de uma sensação democrática, uma experiência multicultural, como a cidade do Recife. Do vendedor de pipocas que se lança para dentro do ônibus oferecendo o ‘passatempo da viagem’ (nas opções doce ou salgada) ao menino que pede para ajudar sua família desempregada,afinal, 'é melhor estar pedindo que roubando, pessoal.’ Sem esquecer das miudezas do grupo Terapia do riso, em versões que vão de cartões temáticos a adesivos do Bob Esponja. E por apenas UM REAL! Ou... UM VALE A. E tudo ao som da Rádio Recife. Dá-lhe Teca Cristina e sua Paradinha de 'sucessos'.
São inúmeros os fenômenos que podem acontecer no interior dos coletivos. Algo digno de um estudo sobre comportamento humano. Tem dúvida? É só perguntar a quem já engatou uma paquera nas últimas cadeiras do busão. É aquela velha história: ônibus vaizo, alguém interessante e... uma possibilidade no ar. Ou melhor, na Terra. Dia desses uma amiga relatou sobre um ‘deus grego’ que ela conhecera dentro do famoso BARBALHO- DETRAN. Depois de se entreolharem por um bom tempo, trocaram telefone e, acabaram se conhecendo melhor. Final da história? Seichelles num dia, Fidji no outro. Isso me lembra o filme dos anos setenta ‘A Dama do Lotação’. A protagonista Solange, interpretada por Sônia Braga, vagava pelos coletivos da cidade em busca de aventuras com todos os homens que ela pudesse seduzir. Em outro ponto da cidade, na Avenida Guararapes para ser mais exato, um senhor de meia idade se agita ao ver se aproximar seu ônibus. P.S.: a expressão ‘seu ônibus’ foi empregada propositalmente. Afinal, o uso do pronome possessivo é marca registrada de quem freqüenta as paradas lotadas de todos os dias. “Até amanhã, fulano. Lá vem meu ônibus”, “O seu vem logo aí atrás”. E o senhor corre em direção à estreita porta de acesso à entrada do velho busão. Creio que o governo deveria criar projetos de inclusão social a partir da realidade de funcionamento dos coletivos do Recife. Você acaba de subir no ônibus, um BARRO-MACAXEIRA da vida, e vai tentando atravessar o estreito corredor. Imediatamente um passageiro sentado surge como voluntário para segurar seus pertences. Ufa! Já é motivo de sobra para um sorriso de agradecimento. Não leva muito tempo para iniciar um dedo de prosa. Em fração de segundos a conversa toma um rumo... típico de compadres ou de vizinhas de dezoito anos de convívio. Aliás, já perceberam como os diálogos nos ônibus iniciam sempre em torno dos mesmos temas? Sol escaldante, trânsito caótico da Conde da Boa Vista ou a lentidão com a qual o motorista conduz o veículo. E dependendo da evolução da conversa outras pessoas vão interagindo no papo, sem o menor pudor. Semana passada um rapaz, sentado lá pelas cadeiras do meio, esbravejava em repúdio ao início do Guia eleitoral na TV. Mal terminou de dizer que ‘nenhum candidato presta’ o homem do lado sorri discretamente, concordando. Em seguida, a mulher da frente se vira e diz que se pudesse ‘não votava em nenhum desses filhos da mãe’. Pronto! Em menos de cinco minutos as dependências do DOIS IRMÃOS- CAXANGÁ transformou-se em mesa-redonda de debate político. Dificilmente cena como esta seria possível no elevador, na fila do banco ou na sala de espera do consultório médico. Andar nos coletivos tem um quê de inusitado, de fetichismo. É um momento único, sempre. Enfim, sem maiores divagações. Eu desço na próxima.